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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Antônia

Um nome simples como sua pessoa. Simples, mas forte.
Com seu 1,78 de altura e 110 quilos, Antônia era o colo preferido de João. Ela o aconchegava em seus braços sempre que dona Helena, cansada prematuramente de seu trabalho materno, pedia a ela.
Com seu vestido de algodão florido, com algumas emendas já percebidas pela patroa, ela parava o que estava fazendo no instante em que era solicitada.
Sua pele escura evidenciava seu sangue africano e os poucos fios brancos na cabeça, sua longa estadia pelo mundo. Os vincos em sua testa, as rugas no contorno da boca, e os chamados pés de galinha nos cantos dos olhos, revelavam sua personalidade expressiva e sorridente. Seus pés eram acomodados por um chinelo rosa já desbotado e seu pouco cabelo crespo colocado para trás com a ajuda de uma tiara, usada tanto por vaidade como por higiene devido às longas horas na cozinha.
Seus olhos expressavam certo cansaço, não era à toa. Começou a trabalhar com nove anos de idade para  ajudar os pais em uma lavoura de café no interior paulista. Antônia jamais esqueceu aquele lugar, o espaço de um dos mais horríveis acontecimentos já presenciados por ela. A escravidão já havia sido abolida, porém na Fazenda Amélia Jardins, onde seus antecedentes serviram no Brasil Colonial, o latifundiário, sabendo que não haveria punição não respeitou muito a nova lei e assassinou seu avô aos olhos de Antônia, ainda menina, por um motivo não compreendido por ela.
Quando fez 15 anos engravidou de um moço que jurou amor eterno pela mulata de lábios carnudos e olhos de jabuticaba. Se a vida já era difícil para ela antes da barriga, depois ficou ainda pior.
Abandonada, carregando consigo o fruto de um cafajeste, Antônia  foi para a cidade em busca de emprego.
O filho nasceu, cresceu e logo saiu de casa para formar sua própria família. Ao contrário dela, o menino foi para a escola ainda pequeno, podendo garantir o salário minimo no bolso.
Não demorou muito para que arrumasse o emprego na casa de dos pais de dona Helena. Uma casa grande,  com três crianças pequenas para tomar conta, seis quartos para limpar e muita louça para lavar.
Ela foi passada para a próxima geração quando a filha caçula casou. Foi trabalhar para Helena e dois anos depois veio o João, com a pele branquinha, olhos azuis e bochechas coradas o menino era criado por Antônia.
Em seus braços ele cessava o choro, com ela deu seus primeiros passos, e agora, já moço, ela o consola por suas desilusões amorosas, suas notas baixas e o ensina o que aprendeu durante a vida., pois apesar de sua pouca escolaridade, Antônia sabia de coisas que a advogada Helena nunca ia conhecer.

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